Depoimento-Parte-5

Durante o meu curso de psicologia eu abri a mente em muitos caminhos, usei maconha e, como qualquer jovem viajei com minha namorada para intimidades em hotéis com o uso de maconha. Depois do inferno vivido nesses tempos procurei apoio em sessões de psicanálise e no estudo próprio da matéria. Os símbolos e os ritos, assim como a frieza do behaviorismo de Adam Smith vieram-me como ferramenta de análise. Lembrei-me ter fumado maconha com a esposa de meu pai Andréia dias antes de seu falecimento e muitas vezes com minha ex-noiva. Naquela época estava eu muito solitário e confuso e numa praça pública de Belo Horizonte encontrei pessoas da rua oferecendo a substância. Comprei e a usei no hotel ao lado da rodoviária.



Também em terapia lembrei que a maconha me havia aberto uma porta de trauma infantil. O molestador era um empregado, um jogador de futebol que havia sido famoso no Corinthians e, depois de aposentado foi contratado por meu pai quando ele produzia um programa na Tv Gazeta e promovia um evento esportivo com veteranos do futebol, incluindo o amigo Coutinho do Santos FC, parceiro de Pelé. Na minha infância, o filho de Coutinho, também chamado Kleber, era meu parceiro de brincadeiras quando eu e minha família visitávamos sua família em Santos. Eu tinha 9 anos e um jogador do time parou em frente à minha casa e fumou maconha, comigo dentro do seu carro. Contei à minha mãe o que ele havia feito e o trauma aconteceu.



Minha mãe entrou em pânico e eu não entendia os efeitos daquela atitude. Fiquei com medo de perder o amor de minha mãe e chorei. Fui tocado pelo adulto com brincadeiras de sedução sexual e, enquanto o homem fumava o cigarro falava palavras de sua mente adulta em relação a questões sexuais. Eu tinha 9 anos, mas uma mentalidade de muito menos. Criado por uma família na década de 70 em regime fechado e centralizadora. Estudava em colégios sempre recebendo medalhas de desempenho intelectual. Naquele momento, preferi esconder a vergonha de ter sido infantil em consequência, ter permitido a um adulto aproveitador afastar-me da confiança e do amor de minha mãe, como se me retirando a inocência sem seu consentimento.



Os anos se passaram e me fizeram esquecer essa vergonha e aos 12 anos já no Rio de Janeiro em visita à minha avó Magnólia e meu avô Gastão, estudando num colégio chamado Brizolão, na 6ª série de ensino fundamental, cantando o hino brasileiro todos os dias, jogando futebol entre meninos normais, novamente a maconha me apareceu e eu fumei-a e senti-me como um gigante, pisando forte e muito mais velho em raciocínio que os meus doze anos me davam no cotidiano. A maconha sumiu por um longo período na minha vida, mas deixou suas marcas. Depois dos encontros e desencontros com a ex-noiva em Belo Horizonte peguei o resto do dinheiro que sobrara e rumei de volta para o Rio, buscando um rumo de apoio com meu tio Jacyr.



Cheguei no Rio com uma mochila de pertences, um violão e a bicicleta que havia ganho no curso que eu dei em Pernambuco na Sala Digital do colégio em Sirinhaém. Sem dinheiro. Busquei meu tio no seu apartamento em Ipanema e não o encontrei. Voltei várias vezes e o porteiro desiludiu-me demonstrando que ele não queria mais me receber. Fui andando pela orla sem conhecer muito o Rio Zona Sul e parei no costado das Pedras do Arpoador. Uma pequena faixa de areia protegida pelo Forte de Copacabana e vi uma barraca montada lá na areia. Sem rumo e tendo uma barraca comigo montei-a e dia seguinte começou uma vida diferente. Eu era agora um hóspede da areia. O lugar era lindo de dia. O mar, o céu e a areia.



Tudo o que uma criança interior sonharia ter. Tirei o violão da sacola e a placa do Projeto de Inclusão Digital chamada TV BOBO que eu havia divulgado antes de ir para Pernambuco em minha visita ao meu pai antes de sua morte. Montei um mapa feito de latas recicláveis e um carrinho de madeira, que eram visitados pelos visitantes do local. Alguns davam-me dinheiro por essa exposição e pediam em troca que eu guardasse seus pertences, enquanto iam ao mar. Abri um Guarda Volumes improvisado e o tempo foi passando. Um dia o Jornal O Globo foi visitar o local e fez uma matéria sobre invasões no Arpoador. A jornalista não me falou sobre isso e pediu que eu dissesse o motivo de lá estar e eu disse divulgar a Tv Bobo.



A matéria, apesar de citar-me como radialista paulistano e referir-se ao meu projeto, não foi benéfica para mim. Ao lado, o jornal colocava junto um vendedor ambulante que usava uma caverna entre as Pedras do Arpoador para guardar mercadorias e a opinião pública passou a entender que, uma barraca na praia, mesmo amparada por um projeto cultural lícito, não merecia exclusividade e todos criticaram dizendo que se eu estava lá sem pagar impostos, os moradores dos condomínios caros também queriam estar ao meu lado, tocando violão de papo para o ar. Em pouco tempo o caminhão da Comlurb sem um auto de apreensão ou infração jogou meus pertences, incluindo violão, partituras, óculos, dinheiro e a barraca no lixo



Senti o peso do desamparo novamente. Isso ocorreu nos idos de 2005 e sem mais nada, além do meu próprio corpo, percorri órgãos públicos pedindo de volta meus pertences, incluindo partituras musicais com composições inéditas compostas por mim. Passei a dormir no túnel Sá Freire Alvim ao lado de crianças cheiradoras de cola. Um dia acordei sem os sapatos. Eu era um artista desconhecido e um radialista e lembrei que era ator. Fui ao encontro do então deputado estadual e ator Stepan Nercessian em seu gabinete na Cinelândia. Fui recebido com carinho e atenção. Entendeu que eu estava desamparado pela família e parentes e sem amigos eu era ninguém e, mesmo ele, não teria mais o que fazer do que fez nesse dia por mim.



Orientou seu chefe de gabinete a enviar reprimendas ao Prefeito Cesar Maia e que ele, sua assessoria deveriam ajudar-me a conseguir minha demanda sob pena de sua rejeição. Agradeci o feito e o anexei à reportagem que iniciei sobre os chamados moradores de rua aos quais nomeei Cidadãos em Estado de Emergência em site produzido por mim dentro do projeto Tv Bobo. Em poucos dias consegui rumo certo para uma hospedagem com alimentação e segurança de minha integridade em hotel municipal no centro do Rio de Janeiro. Lá conheci dois outros cidadãos em mesmo estado. Nos agregamos ao trabalho de distribuição de marmitas no Parque do Lido pela Igreja de Nossa Senhora de Copacabana com o grupo de orações e apoio do pároco.



Esse trabalho, durante meses, em Copacabana resultou em uma matéria escrita por mim no Jornal Posto Seis distribuído em toda a Zona Sul, na edição do livro Morador de Rua Cidadãos em Estado de Emergência escrito pelo pedreiro semi analfabeto Osvaldo Emídio produzido pela Tv Bobo, registrado nos jornais O Povo, A Democracia, Posto Seis. Eu e Osvaldo Emídio fomos entrevistados duas vezes na Rádio Haroldo de Andrade para falarmos desse projeto literário, uma pela radialista Eliete Beleza e outra pelo próprio dono da rádio o radialista Haroldo de Andrade poucos meses antes de seu falecimento. Em meio a isso recebi do Corpo de Bombeiros uma barraca nova iglu que passou a ser minha casa por quase mais de um ano.




O local é conhecido. Parque Garota de Ipanema, Praia do Arpoador, Pedras do Arpoador, Praia do Diabo, Posto Sete, Forte de Copacabana. Lá apoiei a manutenção da Academia ao Ar Livre aberta pela Gatorade e mantida pelo fisioculturista Abílio Bergamini, que passou a ser meu amigo, parceiro, familiar e companheiro de luta no mundo real. A região é visitada pelos carros de televisão para tomadas externas e vi passar por lá ao meu lado pessoas famosas como Renata Ceribelli, Glória Maria e soube que o ator Selton Melo pediu à produção do filme Meu Nome Não é Jonny que me retirasse de lá para a filmagem da cena final de seu filme. Para quem viu é exatamente no local que ele olha para o mar que estava minha barraca.




Enquanto vivi essa época, mesmo nas ruas sob condições precárias, aproveitei a oportunidade como radialista que sou realizar uma matéria viva sobre a realidade social no Rio de Janeiro e em São Paulo. Passei períodos na capital paulista e com o apoio direto de um músico baiano parceiro de hospedagem em um hostel na Fradique Coutinho, formando um comunidade de músicos e artistas enquanto eu estudava canto lírico e popular na Universidade de São Paulo por 10 anos. Com nome de irmão Carlos contratou-me para criar seu site de músico popular de arte eclética. Indicou-me mais outros clientes e com seu sogro consegui alugar um estúdio para produzir como web designer sites comerciais paulistanos e manter-me protegido.




Um dos trabalhos que realizei como programador de internet na época foi o site da loja de automóveis importados Base Automobile localizada na Avenida Jornalista Roberto Marinho São Paulo. Mesmo assim cheguei a propagar o Manifesto de Rua em defesa das populações sem teto e sem direitos e catei latas em cubas de lixo como demonstração de engajamento. Em seguida voltei ao Rio para apoiar o escritor pedreiro semi analfabeto lançar seu livro e na sua entrada como filiado do PSOL Rio e em alinhamento com sua candidatura à Câmara Legislativa como deputado estadual pelo PT. Ao final, cansado e sem estímulo próprio despedi-me de Abílio Bergamini no Arpoador e procurei novo apoio com meu irmão Claudio em Minas Gerais.



Na época, morando dentro de uma barraca na praia, vivendo por pressão como militante político em defesa de miseráveis e crianças drogadas, morrendo em frente às Igrejas, não era feliz. Engoli minha vaidade e aprendi o que o livro Eclesiastes diz em primeiro versículo na própria carne. Se o ser humano, mesmo com estudo como eu não era valorizado pelos irmãos humanos das outras famílias, eu tive a sorte de encontrar no carinho de uma filhote canina de raça especial vendida na rua por R$ 20,00 o carinho e o ensinamento maior que mostra a verdadeira face de Deus na união das espécies e explica o poder superior da Natureza acima da lei opositiva dos Homens. Ela nomeada por mim como Carioca Quinha Alcasar recebeu-me.



Com o dinheiro recebido nos sites em SP, no Rio e o apoio de João um jogador de frescobol campeão, ex-funcionário do BEMGE, peguei minha cadelinha, nossa bicicleta, providenciei documentos para o transporte no ônibus e nos hospedamos na Hospedaria Benjamin Constant na Lapa para tomar banho e descansar em ambiente limpo. No banho, durante a noite, alguém entrou no quarto e roubou o dinheiro reservado para a viagem. O mundo caiu para mim novamente e a volta às ruas era iminente. A polícia militar foi chamada e eu e Carioca Quinha passamos a tarde na 9ª Delegacia do Catete. O tenente militar, percebendo verdade em nós passou a nos ajudar, levando-nos para a rodoviária e pagando do próprio bolso nosso embarque.



O motorista insistiu e Carioca Quinha viajou a primeira parte da viagem no bagageiro. Latiu até ficar rouca e, depois de muita insistência o motorista liberou sob ameaça de retirar-nos da viagem se ela latisse em meu colo dentro do ônibus. Ficamos abraçados o tempo todo. Ela era um bebê filhote e aninhou-se em colo e dormiu. Dei graças a Deus por isso e relaxei. Sabia que ela era especial e no futuro demonstrou poder vocal em uivos melódicos, ensinando sua prole a seguí-la em harmonia. Minha filha canina amada e protetora agora me protegia dos agressores sonoros invisíveis.

Depoimento Parte 6