Depoimento-Parte-4

Da primeira vez que fui visitar meu pai em seu hotel, o Ilha Mar Hotel e o seu restaurante Sabor Delícia eu estava em férias no Banco do Brasil e recém separado de minha noiva ex-colega de trabalho. Fui de automóvel Fiat Mille com 5 marchas e desempenho excelente numa viagem solitária e romântica, passando por quase todo o litoral brasileiro de São Paulo a Pernambuco. Na volta retornei ao trabalho via Brasil central, passando por Feira de Santana, Teófilo Otoni e Aparecida do Norte. Desta vez, anos depois, já fora do Banco do Brasil com o projeto TV Bobo copiado em dvds em andamento, a menor emissora de televisão do mundo, operando na recém internet disponível ao Brasil, eu estava sem condução própria.



Toda essa programação da Tv Bobo era compactada, cabendo em um mini cd e oferecida, gratuitamente, para escolas no trajeto de minha caminhada. O projeto havia sido incluído nas comemorações paulistanas dos 500 anos pela Prefeita da cidade de São Paulo Marta Suplicy na virada do milênio e considerada de interesse para a municipalidade, ganhando o selo histórico dos 500 anos, proporcionando com isso, tempos depois, a criação da Organização não-Governamental Tv Brasilis Online Brazilian Organization em defesa da liberdade de expressão e preservação da memória e da cultura do povo brasileiro no país, no planeta e no Universo com Estatuto registrado no Rio de Janeiro, passando a chamar-se em rede Tv Bobo Produções.



Na programação o programa de rádio online Terra Brasilis, as entrevistas com personalidades no sítio Bobo Repórter, além da final esportiva entre Corinthians e Vasco da Gama no Maracanã pela disputa do título mundial entre clubes em 2001 pela FIFA narrado por mim e apresentado no Bobo Esporte. Esse conteúdo foi entregue, pessoalmente, e noticiado em Guarulhos pelo Jornal Olho Vivo e recebido por escolas e bibliotecas da região. Foi, também, entregue na sede da Rede Globo de Televisão em Jacarepaguá e na produção do programa Xuxa na sede do jornalismo na Lopes Quintas para conhecimento público e divulgação. Viajando comigo pela Dutra foram meus dois mascotes, os roedores Ramsters Bô e Bú.



Bô era dócil e festeiro, enquanto Bú era preciso e fiel aos comandos. Na barraca que usei na peregrinação os dois dormiam ao meu lado e achavam espaço em sintonia com o movimento do meu corpo em sono. Eu os amava e eles me protegiam. Nossos pertences, que incluíam teclado, violão, caixa de som, partituras, bateria, barraca, microfone e um monitor de computador oco e vazio, onde Bô e Bú brincavam e eram vistos por todos pela tela transparente. Chegando no Rio, depois de distribuir o conteúdo da Tv Bobo encontrei-me e fiquei hospedado no apartamento em Ipanema do meu tio avô Jacyr Lacerda irmão de minha avó Magnólia Lacerda de Siqueira, mãe de minha mãe Gilma de Siqueira Alcasar.



Na casa de meu tio Jacyr fui hospedado como filho e convidado a ficar e produzir seu livro de poemas e recordações como funcionário aposentado do Banco do Brasil, desde que interrompesse minha viagem de encontro com meu pai em Pernambuco. Moraria com ele e sua jovem esposa advogada e seria remunerado para tal fim. Nos dias que se seguiram refleti sobre minha responsabilidade junto ao meu pai e desculpando-me com meu tio segui viagem.



Em Pernambuco soube que meu pai José Alcasar havia vendido seu hotel à beira da Praia de Barra de Sirinhaém, depois de sua derrota nas urnas. Nessa época meu pai já casado com a sobrinha neta de Ariano Suassuna, a odontóloga Andréia Domingues e pai seloso de sua filha com ela minha irmã Mari, dividia seu tempo em assessorar um escritório de advogado local, a própria esposa e seu consultório, o lançamento do primeiro livro de frases e desenhos de sua pequenina filha talentosa e me apresentar os quitutes do paraíso tropical da região, escondendo sua condição de saúde precária de mim por um diagnóstico de risco de morte dado por médico local sobre sua saúde coronária e um possível e fulminante ataque cardíaco.



Tentei honrar meu pai e, mesmo em férias, à pedido da diretora da Escola Estadual de Serinhaém PE criei o Workshop Aprendendo a Usar o Computador para a inauguração da Sala Digital ganha do governo do Estado e parada por falta de técnicos a operá-la em nome da escola na comunidade. O curso englobou mais de 3.000 alunos, professores e comunidade local em oficinas diárias por mais de 2 meses. Recebemos ao final a visita do governador à época Jarbas Vasconcelos e eu gratificado por formar turmas de alunos capazes a multiplicar oficinas futuras e projetos, incluindo arquitetônicos e de publicidade entre os alunos do ensino público estadual recebi da diretora cestas básicas e de um vereador uma bicicleta nova.



Após esse trabalho meu pai se aproximou de minha irmã, deu-me orientações para que eu o deixasse lá e retornasse para realizações maiores. Pediu que eu esperasse até dar-me um sinal de partida. O sinal era um valor simbólico em dinheiro de 700 ou 800 reais. Na época não entendia bem os sinais de meu pai e o obedeci assim mesmo. Depois, refletindo sobre nossas experiências lembrei-me sobre a viagem à Uberaba, quando depois de hospedarmo-nos na cidade e visitar os vários centros e ter com Eurípedes acesso ao pai Chico Xavier recebemos na noite que se sucedeu o encontro, no centro espírita de Francisco Cândido Xavier a psicografia de minha mãe Gilma. Testemunhas locais, Leonice de Freitas e minha ex-noiva Flávia.



A psicografia foi lida na minha presença e de meu pai pela boca do próprio Chico Xavier, que depois entregou-nos o texto escrito a lápis em letras no formato manuscrito enorme. Além de seus assistentes de trabalho sentados ao seu lado, existiam muitos populares sentados no entorno em plataformas de madeira como uma platéia de arena, tendo ao centro uma mesa retangular grande de madeira coberta por uma grande toalha de tecido branco, onde na ponta da mesa ele Chico Xavier trabalhava assessorado pelo filho Eurípedes. Com um microfone comum lia as várias mensagens vindas de seus orientadores espirituais, incluindo Emanuel e com esse microfone leu a carta espiritual de minha mãe Gilma de Siqueira Alcasar para nós.



Recebi de Andréia, esposa de meu pai, o valor de R$ 700,00 para a viagem de volta. Meu pai, conforme disse ela, preferiu não entregar o valor pessoalmente. Entendi isso como um sinal de partida. Permaneci na casa alugada por ele por mais alguns dias, arrumei minhas coisas e viajei para Maceió, ficando num hotel ao lado da rodoviária, pesando minha atitude de afastamento de meu pai naquele momento. Dois dias depois entrei num ônibus rumo à Belo Horizonte. Chegando em Minas Gerais telefonei para meu irmão Claudio em Divinópolis. Ele deu-me ao telefone a notícia que nosso pai José Alcasar havia morrido.+. Fiquei sem ação. Perdi o chão. Culpou-me de tê-lo abandonado ante à morte e impediu-me de ir para sua casa.



Sem lugar para ir, fiquei sem rumo, sem caminho e casa. O dinheiro era pouco e não sabia o que fazer. Procurei em Belo Horizonte a noiva que havia compartilhado como mulher de cama nove anos de minha vida e ela negou me receber. Hospedei-me num hotel de viajantes no centro da cidade e por três dias tentei contato. Finalmente ela recebeu-me na porta da agência bancária que trabalhava e mostrou-me na mão sua aliança de casamento. Fiquei sem pernas e, não a reconhecendo nem como amiga, sai sob o olhar do vigilante do banco até cair sentado no chão do outro lado da rua.

Depoimento Parte 5