Depoimento-Parte-2

O Banco do Brasil me fez optar entre demissão voluntária ou transferência de Minas Gerais para São Paulo. Escolhi o CESEC Tatuapé na capital e convidado fui a morar com meu irmão imediato Carlos, esposa e filha em São Bernardo do Campo. Comprei seu carro usado e passei a utilizar o circuito Banco do Brasil, SBC, Coralusp. Durante um ano ou mais circulei em vazio existencial, sem casa, sem minha noiva e sem destino compatível com minhas buscas pessoais. Conheci um cabeleireiro e um gerente de bar e entre conversas amistosas encontrei as várias formas de uso da cocaína. Aspirada, fumada e injetada diluída em água. Fui sendo introduzido no ambiente de uso, compra da droga e enrustimento da dependência química.



Com a vida mantida pelo emprego e pelo curso de Psicologia em transferência para a Universidade Metodista de São Bernardo do Campo e frequentando bordéis na procura de prostitutas carinhosas em substituição a desistente noiva que ficara em Minas Gerais com outros objetivos, depois de 9 anos de relacionamento comigo eu sucumbi a, pelo menos, duas pré overdoses e não mais tendo comigo mesmo caminhos sensatos solicitei ao Banco do Brasil internação. Primeiro na Clínica Maria Tereza em Cotia chefiado por Dr. Laco. Depois no Hospital Dia da Cassi no Paraíso, enquanto decidia pessoalmente por meu desligamento espontâneo da carreira administrativa do Banco do Brasil conseguida por concurso público e garantida em lei.




Minha desintegração psicológica arrefeceu com o tempo e, sem recaídas na cocaína ou outras misturas dessa droga sintética eu percebi ser dependente químico de maconha e ter com ela uma dependência originante na cena de pedofilia promovida pelo jogador de futebol parceiro e empregado de meu pai na minha infância, situação já tratada nesse depoimento. Entendi que a cocaína não me era agressora e entrava em meu psiquismo pela via do cigarro por igualdade de invasão química. Abandonei o cigarro depois de muito esforço pessoal e não mais fui prisioneiro da Cocaína. A maconha passou a entrar esporadicamente e em momentos de relaxamento em viagens e diversões. O uso da voz sobrepôs sua importância em minha vida.




Viajei de carro em férias a Porto Seguro na busca dos ex-caminhos por mim e minha ex-noiva. Conheci uma médica e sua filha de 12 anos. Tive relações sexuais com a médica e sua filha de 12 anos aceitou-me como acompanhante em passeios ao redor da hospedaria com a autorização de sua mãe. Mariana tinha simpatia infantil por mim e eu a respeitava à distância de sua mãe. Dias depois, conheci na praia de Arraial D´ajuda uma argentina estudante de sociologia chamada Carolina Rosas e com afinidades de parceria começamos a namorar. Marcamos de seguirmos juntos em viagem para Salvador e naquela noite despedi-me de Mariana e sua mãe. Mariana resistiu e como marca de rejeição um grande rabisco na traseira de meu carro.




Naquela época, meu pai tinha um hotel na região de Porto de Galinhas. Eu e Carolina fizemos uma viagem conjunta, passando por Ilhéus, nos hospedamos no Pelourinho em Salvador. Eu seguiria para Pernambuco e ela voltaria de avião para o Rio de Janeiro. Depois que tive o pico de uso contínuo de drogas no ano seguinte e me internara, meu pai me orientou sobre as consequências dos atos praticados e levou-me ao diretor do Instituto Médico Legal de Salvador para uma aula particular sobre o assunto. O médico constatou ser minha dependência psíquica e não química e alertou-me sobre a paranoia resultante no uso continuado da maconha à semelhança da cocaína. Por 1 hora deu-me rédeas do tema com meu pai na sala de espera.




De volta a São Paulo meu irmão convidou-me a trabalhar na clínica de terceira idade da esposa de seu patrão pertencente ao grupo argentino no qual era representante comercial. Eu ainda estudante havia desenvolvido a teoria do uso das áreas de associação cerebral para a busca da cura do Mal de Alzheimer e trabalhei na clínica com esse propósito com estímulos sensoriais e musicalização, buscando a transferência das áreas de ação mental lesadas para novas áreas de ação em ambiente associativo. As áreas de associação são áreas de transferência de estímulos, não acumulam dados e por esse motivo utilizava-as para esse fim nos pacientes em terapia. Tempos depois pude melhorar minhas pesquisas e entender melhor o tema.



Sem a presença de minha mãe Gilma, a desintegração da família foi a consequência visível ao longo do tempo. Uma sucessão de eventos de desproteção foram me colocando para fora de meu eixo de harmonia pessoal e rompimento com a ex-noiva, uma ameaça de gravidez e aborto, um acordo forçado de demissão voluntária colocou-me para fora de minha carreira bancária. A mudança de cidade e desistência em assumir o não pagamento de comissões por trabalho realizado fora de minhas funções, além dos preconceitos gerados pela hostilização dos colegas remanescentes adoeceu-me em corpo e mente. Logo a formação como radialista se fez presente numa nova rota de vislumbre da realidade social ao lado de minha desproteção pessoal.



Mesmo como radialista formado numa das melhores escolas de radialismo do Brasil, frequentada por colegas como Denise Fraga, Willian Bonner e, o próprio dono, o radialista Cyro César e, mesmo eu agora, tendo o protocolo do controle das frequências assumi que para manter segura a responsabilidade de operar em ambiente de comunicação social e manter a integridade de meus ouvintes e do público em geral, suscetível de forma passiva a frequências sonoras audíveis e inaudíveis como são as frequências captadas por animais como cães e gatos conforme estudos científicos e que o ouvido humano não capta, a não ser de forma inconsciente.



Além de toda massa sonora que é produzida e justaposta em camadas frequenciais, vindas de todas as emissoras de rádio e televisão, radioamadores e da frequência do pensamento de outros cérebros humanos no nosso entorno e na atmosfera que nos cerca. Tendo o protocolo da ciência de que uma rádio ou televisão, mesmo não sintonizada, ainda assim esta lá a produzir frequências, assumi eu que precisava aumentar minhas competências, buscando formação técnica como ator, cantor e músico, além de radialista com registro profissional dado pelo Ministério do Trabalho e pelo Ministério da Educação e Cultura MEC diplomado pela escola em questão sob nº 015728, garantindo-me vaga de trabalho em emissoras de rádio e televisão.



Nesse caminho como ator frequentei a Escola de Teatro Macunaíma, Oficinas, Workshops, atuando em peças sob orientação de diretores famosos e de crédito junto ao público como Denis Carvalho, Jonas Bloch, Sebastião Apolônio e em palcos como Teatro Ruth Escobar, Sala Gil Vicente, Teatro Mars, Instituto Hebraico, Centro Cultural Vergueiro, audiência em peças da ECA na Universidade de São Paulo. Sob os protocolos adquiridos de ator em teatro e televisão, exames de banca junto ao SATED São Paulo levaram-me a uma convivência definitiva com a arte da interpretação como aluno da atriz Lígia de Paula ex-presidente do Sindicato de Atores e Técnicos em Espetáculos de Diversão de São Paulo, falecida em maio deste ano. (+)



Nessa formação fui empurrado para o ambiente de dublagem trabalhando na Álamo, BKS, Clone, Centauro, além de estudos em outras empresas. Participei na TV Bandeirantes de gravações do programa Turma do Balão, no SBT na figuração do Tudo por Dinheiro, no Programa do Gugu como ator no personagem irmãos cara de pau e, finalmente, nas mãos do mesmo diretor de Angélica, Maurício Mattar, Toni Tornado e a inesquecível Tonia Carreiro tive o privilégio de ser aplaudido tanto no palco com dois personagens em modelo teatro de revista, quanto na tela do cinema do Museu de Imagem e do Som no lançamento do longa metragem onde nos créditos frontais do cartaz constava meu nome artístico, filmado pelo diretor Wilson Rodrigues.



Fui bem sucedido como ator em temporada diária por mais de dois meses no show anual denominado Noites do Terror, contracenando com o público e com artistas enviados entre eles Otaviano Costa e o Grupo de Pagode Cara Metade, tendo imagens de minha personagem veiculadas no Jornal Nacional da Rede Globo e no Programa Faustão, além de outras emissoras. Nessa época, longe do Banco do Brasil e morando independente da família, às expensas de minha carreira de ator desconhecido em hotéis, quartos alugados e ou improvisados redescobria São Paulo da Julio Prestes, São João, Rego Freitas e namorando garotas de vida duvidosa tentava formar um grupo de teatro dando carona para colegas depois do ensaio como um saltimbanco.



Entretanto, a carreira política se me gritava na visão das injustiças sociais, nas plataformas governamentais aprisionantes e numa Constituição Federal moderna e, ao mesmo tempo, insuficientemente regulamentada e os políticos se alinharam diante de meu caminho em encontros casuais. Mário Covas num coquetel para atores em sua residência no Palácio dos Bandeirantes ao lado da esposa. Geraldo Alckmin e José Serra num encontro casual e cafezinho informal em uma padaria da Pedroso de Morais em Pinheiros. Enquanto isso tinha notícias que meu pai José Alcasar viúvo e já dono de um hotel a beira do mar ao lado de Porto de Galinhas se candidatava com o apoio nacional de Paulo Salim Maluf à câmara de vereadores local.



Eu, em São Paulo, sem noção da grandeza desses encontros em minha vida de jovem solteiro só pensava em brilhar como artista e entrei de corpo e alma na minha carreira de cantor, buscando conhecimento vocal como coralista tenor do Coral da Universidade de São Paulo e por lá permaneci por aproximadamente 10 anos. Entre o canto lírico, popular, monitor de coro, estudo de harmonia funcional, estudo de piano, técnica vocal, percepção musical, percussão corporal, além de paralelamente integrar a Universidade Tom Jobim, coros do SESC, Conservatório Souza Lima, disputando bolsa de estudos na Berklee de Boston sem sucesso e no aprendizado de saxofone na Escola de Ivan Meyer músico brasileiro internacional.



Participei de movimentos culturais com propostas inéditas e criação de sites para músicos e como desenvolvedor na internet que se instalava no país. Professor de música no Centro Budista Kadampa para monges e estudantes do Dharma, e contratado do Colégio Inaci na Saúde, dando aulas de música para crianças de 4 a 16 anos da pré escola ao ginásio. Entretanto, no Coralusp a conquista do brilho maior era a harmonia coletiva invisível entre público, cantores e maestro na cumplicidade divina e na abertura frequência espaço tempo, onde Deus, acima de nós, recebia o aplauso ao fim.

Depoimento Parte 3